domingo, 27 de abril de 2008

"Ajayô, ajayô ô ô ô. Axé babá, axé babá á á á" (1)

Em meados de 2000 fui pros EUA visitar Douglas. Estou andando por Manhattan, descendo a quinta avenida, atravesso uma rua e escuto alguém me chamando (aos gritos) pelo apelido de infância:

- Polho, Polho.

Nos segundos que meu cérebro demorou em registrar, aceitar e processar o que estava acontecendo eu escutava outra pessoa dizendo:

- Não é Polho
- É sim.

Me viro e vejo Christiano e Toy, dois amigos das antigas e que eu não via fazia alguns anos.

Batemos papo, eles estavam morando em NY, vivendo a vida, trabalhando e comendo à base de White Castel ( uma espécie de McDonalds super-hiper-mega barato onde você compra hamburguer à duzia, literalmente ).

Depois de muita risada e uma curta troca de experiências cada um segue o seu lado. Quando estou entrando no trem que me levaria a New Jersey notei que esqueci de pegar o telefone deles. A gente poderia sair alguma noite para tomar uma e papear mais.

Comento isto com Douglas que da muita risada da minha cara. Primeiro pelo fato inacreditável de eu encontrar amigos quando estou passeando por NY. Segundo por ser desligado o suficiente para não trocar telefones.

Termino respondendo a Douglas que acabarei encontrando Crhistiano e Toy "por ai".

Três dias depois vou com Douglas à noite tomar uma de bar em bar no Village e adivinhem que eu encontro? Pois é, lá estão Chris e Toy caminhando pela mesma rua sem destino como eu e Douglas.

Meados de 2004, estou vivendo em Barcelona perto de defender meu mestrado e meu orientador decide que vamos a Salvador para uma especie de conferência-encontro onde meu orientador vai fazer uma apresentação e tentar vender a idéia de um doutorado conjunto entre alguma universidade de Salvador e a Universidade Autônoma de Barcelona (até hoje não entendo como pode ter faltado vontade política por parte do Brasil de colocar esta idéia em prática, imagine somente que os diplomas seriam duplos europeu e brasileiro - uma pena).

Estamos alí buscando o secretário da Fapesb quando reconheço a pessoa que está, de terno e gravata, ao lado do secretário. Era Christiano! Mais uma vez damos muita risada. Ele me explica que estava acessorando a Fapesb. Isto ajudou a gente a conversar com o governo. Conversei bastante com Chris neste dia, atualizamos a vida e ele disse que um dia destes viria me visitar em Barcelona.

Ano 2006. Estou me preparando para iniciar a escritura de minha tese. Recebo um email de Christiano convidando para ir a um show de sua banda em um bar de Barcelona. "Barcelona???" Penso eu. Convido um par de amigos espanhois, respondo seu email dizendo que vamos e "incluindo nosso nome na lista de entrada". Prática esta bastante brasileira, importada por Christiano, e que evitou que pagássemos os 7 euros da entrada.

Christiano tinha saído da Fapesb e estava fazendo uma pós aqui em Barcelona. Na realidade ele estava tocando com sua banda e estudando nas horas vagas. Le pergunto de Toy e descubro que ele está morando na Austrália.

Christiano foi ficando, foi ficando e segue por aquí. Anteontem fui para mais um show da banda de Christiano, Iyexá. Gosto muito dos seus shows, música baiana bem selecionada e acabo sempre conhecendo alguns brasileiros mais.

Encontro entã0 com Toy que está agora morando em Barcelona e fazendo algum tipo de curso. Trabalha de VJ em uma discoteca e está iniciando hoje em alguma barraca de praia, trabalhando na cozinha - cozinha, Toy???? hummmm.

Pensando nas letras das músicas cheguei à conclusão que, assim como os americanos fazem sua catarze e escrevem sua história com filmes hollywoodianos; os cariocas sonham através de suas novelas exibindo os desejos de ser classe média alta com casas decoradas, roupas de marca e do Rio ser o umbigo do mundo. Nós, os baianos, cantamos nossa vida, nosso dia a dia, mas não o da classe alta e sim a do povo de verdade, com letras e músicas escritas por pessoas que fazem parte deste povo.

Se é verdade que "quem canta os males espanta" a Bahia é uma terra pura de todos os males.

Nas letras estão com igual status o Corredor da Vitória, a "negra do cabelo duro" e o bairro da Liberdade. Isto sem contar a "ladeira do Pelô", Curusu, Amaralina, e até a Boca do Rio que é "beleza pura". Bairros de classe alta e não tão alta assim.

Mas, para mim, o mais interessante é que a felicidade está presente em todas as castas e isto não deixa de ser verdade. "O nordestino é acima de tudo um forte" e, além de forte, é alegre apesar de toda adversidade. "Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia".

É uma verdadeira pena ver que o "Haití é aqui" e doi presenciar o "paradoxo" entre riqueza e pobreza "escondido na areia", um com visão romântica da sereia do mundo enquanto os "outros a desejar seu rabo para ceia".

E ao olhar para política, ao conversar com a classe média e com a elite universtitária não dá para deixar de pensar: "Ôôô , ôô. Gente estúpida. Ôôô , ôô. Gente hipócrita."

E "quando você for convidado pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado" verá onde foi o último Pelourinho, onde os escravos foram torturados. Constatará que ainda hoje "ninguém é cidadão". "Como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados"?

E nós cantamos nossas virtudes, nossos males, desejos e amores. Em música ritimada, nos batuques, nas letras, nas palafitas, nos barracos. Cantamos, dançamos e festejamos. Criamos uma democracia da música onde as classes se encontram. Mas estamos longe de romper os préconceitos. Longe de romper as amarras para encontrar o bem estar desta gente.

"Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter sonho sempre". E "andar com fé eu vou". Fé de que um dia isto tudo mude e possamos resolver nossos problemas de educação, segurança e pobreza.

Afinal "é claro que o sol vai voltar amanhã"(2) e na Bahia o sol volta sempre bem quente e muito forte.

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(1) Ajaiô - Luis Calda
(2) Acredito ser a única citação neste post de uma música que não foi composta por um baiano. Mais uma vez - Renato Russo

3 comentários:

Alfrânio Júnior disse...

Mais um post excelente.

O contraponto entre as experiências pessoais com esses seus dois amigos e a Bahia ficou de fuder.

slgramacho disse...

Estava a olhar o post sobre o passeio a 220 Km/h por recomendação do meu irmão Johnny e me deparei com este outro post que fala da baianidade.

Minha opinião sobre nós baianos é muito parecida: somos felizes de graça, somos fortes diante das nossas adversidades, mas isto não é ruim. Isto só nos faz cada vez mais fortes. Quando estamos em situações bem controladas talvez não sejamos diferenciados, mas na hora do aperto, "bota os baianinhos para pensar e ralar que só sai coisa pôrreta, meu velho"

Edu disse...

Seja bem vinda. Pois he... tenho muito ainda para falar sobre a Bahia porque nao encontrei ainda lugar onde a felicidade seja tao independente das condicoes do povo.
E ja viajei muito por este sertao. Pouco pelo que resta de Brasil mas pela Bahia... ai .. ai...
Um grande abraco,
edu